Pesquisador e quadrinista, autor de uma série de livros sobre a técnica das HQs (produzidos em formato de quadrinhos), Scott McCloud parece respirar e transpirar quadrinhos.


Tal característica pode ser observada neste vídeo, que traz uma apresentação dele no TEDx, na qual conta um pouco de sua própria história e de sua paixão artística. McCloud alterna fala e apresentação de slides, enquanto conta história, aborda conceitos como o de tela infinita, em meio a divertidas divagações.

Quem preferir, pode conferir no final do post a transcrição em português da fala de McCloud.

E se você quer saber mais sobre o autor, visite o site dele. E sobre o estudo e os conceitos quadrinísticos tratados por ele, não deixe de ler o seu mais conhecido livro, Desvendando os Quadrinhos (na minha lista de 5 livros básicos pra aprender a fazer HQs). Ele também produz histórias não-acadêmicas, como o recente (e bastante interessante) O Escultor.

Scott McCloud no TEDx

A seguir, a transcrição em português da palestra The visual magic of comics, por Scott McCloud:

Dos cinco sentidos, a visão é o que eu aprecio mais e é também o que eu menos posso ignorar. Acho que isso em parte é devido ao meu pai, que era cego. Era fato que ele não fazia muito caso a respeito. Uma vez na Nova Escócia, quando nós fomos ver um eclipse total do sol — sim, o mesmo da música do Carly Simon, que pode ou não se referir a James Taylor, Warren Beatty ou Mick Jagger, realmente não temos certeza. Entregaram esses visores de plástico escuro que nos permitiam olhar diretamente para o sol sem machucar nossos olhos. Mas papai ficou realmente assustado: Ele não queria a gente fazendo aquilo. Ele quis que usássemos esses visores baratos de cartão. para que não houvesse nenhuma chance de que nossos olhos fossem machucados. Confesso que achei um pouco estranho na época.

O que eu não sabia naquela época era que meu pai tinha na verdade nascido com a visão perfeita. Quando ele e a irmã dele Martha eram muito pequenininhos a mãe deles os levou para ver um eclipse total — ou melhor, um eclipse solar — e não muito depois disso, ambos começaram a perder sua visão. Décadas mais tarde, descobriu-se que a fonte de sua cegueira era muito provavelmente alguma espécie de infecção bacteriana E pelo que podemos dizer, não teve absolutamente nada a ver com o eclipse solar, mas até aí minha avó já tinha ido para seu túmulo pensando que havia sido culpa dela.

Então papai se formou em Harvard em 1946, casou com minha mãe, e compraram uma casa em Lexington, Massachusetts, de onde os primeiro tiros saíram contra os britânicos em 1775, embora na verdade nós não tenhamos acertado nenhum deles até o Concord. Ele arranjou um emprego trabalhando para a Raytheon, desenhando sistemas de orientação, que eram parte do eixo high-tech da Rota 128 naqueles dias — então o equivalente ao Silicone Valley nos anos 70. Papai não fazia o estilo militar; ele apenas se sentiu realmente mal por não poder lutar na II Guerra Mundial por causa da sua deficiência, embora eles tenham deixado ele passar em vários exercícios físicos de longa duração até que finalmente chegaram ao último teste, que era o de visão. (Risadas)

Então, papai começou a registrar todas essas patentes e a ganhar a reputação de um gênio cego, cientista maluco, inventor. Mas para nós ele era apenas papai, e nossa vida em casa sempre foi bem normal. Quando criança, eu assistia a muita televisão. e tinha muitos hobbies nerds. como mineralogia e microbiologia e o programa espacial e também um pouco de política. Eu jogava bastante xadrez. Mas aos 14, um amigo despertou meu interesse por histórias em quadrinhos, e eu decidi que era aquilo que queria fazer para ganhar a vida.

Então, eis meu pai: um cientista, um engenheiro e um servidor militar. Então ele tem quatro filhos, certo? Um cresce e se torna um cientista de computadores, um cresce e entra para a marinha, um cresce e se torna engenheiro, e então tem eu: o artista dos gibis. (Risadas) Que, por acaso, me faz o oposto de Dean Kamen, porque eu sou artista dos gibis, filho de um inventor, e ele é um inventor, filho de um artista dos gibis. (Risadas) Fazer o que, é verdade. (Aplausos)

O engraçado é, papai tinha muita fé em mim. Ele tinha fé nas minhas habilidades como cartunista, mesmo que ele não tivesse a menor evidência direta de que eu fosse realmente bom: tudo que ele via era apenas um borrado. O que me dá um significado verdadeiro para a expressão “fé cega” que não tem a mesma conotação negativa para mim que tem para outras pessoas. Agora, fé nas coisas que não podem ser vistas, que não podem ser provadas, não é o tipo de fé que eu já tenha me relacionado muito, até hoje. Minha tendência é gostar de ciência, onde o que nós vemos e podemos nos certificar são a fundação do que nós sabemos.

Mas tem um meio-termo também. Um meio-termo trilhado por pessoas como o pobre e velho Charles Babbage e seus computadores a vapor que nunca foram construídos Ninguém realmente entendeu o que era aquilo que ele tinha em mente, exceto por Ada Lovelace, e ele foi para seu túmulo tentando perseguir aquele sonho. Vannevar Bush com seu Memex — esta ideia de todo o conhecimento humano na ponta dos seus dedos — ele teve esta visão. E eu acho que muitas pessoas da época dele provavelmente pensavam que ele era meio “esquisito”. E, sim, nós podemos olhar para trás e dizer, sim, hahaha, vocês sabem — está tudo num microfilme. Mas isso — isso não é ponto. Ele compreendeu a forma do futuro. Assim como J.C.R. Liklider e suas noções para interação homem-computador. A mesma coisa: ele entendeu a forma do futuro, mesmo que fosse algo que só seria implementado por pessoas muito depois. Ou Paulo Barron, e sua visão para a troca de pacotes. Quase ninguém o escutou na sua época. Ou mesmo as pessoas que realmente fizeram funcionar, as pessoas da Bolt, Beranek e Newman em Boston, que simplesmente iriam esboçar essas estruturas daquilo que viria a ser uma rede mundial, e esboçando coisas no verso de guardanapos e em folhas soltas e discutindo no jantar no Howard Johnson — na Rota 128 em Lexington, Massachusetts, a apenas duas milhas de onde eu estava estudando o Queen’s Gambit Deferred e ouvindo Gladys Knight & the Pips cantando “Midnight Train to Georgia,” enquanto — (Risadas) — na minha cadeira conforável do papai, sabem?

Então, três tipos de visão, certo? Visão baseada naquilo que ninguém pode ver: a visão do jamais-visto e desconhecido. A visão daquilo que já foi provado e pode ser certificado. E este terceiro tipo de visão, de algo que pode ser, que talvez seja, baseada em conhecimento, mas ainda não foi provado. Vimos muitos exemplos de pessoas que estão perseguindo este tipo de visão na ciência, mas eu também acho que é verdade nas artes, é verdade na política, e é tão verdade quanto nas relações pessoais

Na verdade tudo se resume a quatro princípios básicos: aprenda de todos, não siga ninguém, procure padrões e trabalhe MUITO. Eu acho que esses são os quatro princípios que vão nisso. E é no terceiro, especialmente, onde as visões do futuro começam a se manifestar. O que é interessante nesta maneira particular de ver o mundo, é, eu acho, apenas uma de quatro diferentes maneiras que se manifestam em diferentes campos de relacionamentos. Nos quadrinhos, eu sei que é o resultado de uma atitude formalista em direção a tentar entender como funciona. E então tem outra atitude, mais clássica, que abraça a beleza e a técnica. Uma outra acredita na pura transparência do conteúdo. E então outra que enfatiza a autenticidade da experiência humana — e a honestidade e a crueza.

São quatro maneiras diferentes de olhar para o mundo. Eu até dei nomes para elas. O classicista, o animista, o formalista e o iconoclasta. Interessante, pois corresponde mais ou menos às quatro subdivisões de Jung do pensamento humano. E elas refletiram a dicotomia entre arte e prazer na esquerda e na direita; tradição e revolução no topo e embaixo. E se você for na diagonal, você tem o conteúdo e a forma — e então a beleza e a verdade. E provavelmente isso se aplica tanto quanto à música e ao cinema e às belas artes, que não tem nada a ver com a visão, ou caso importe nada a ver com o tema da conferência “Inspirado pela Natureza” — exceto até a extensão da fábula do sapo que dá uma carona para o escorpião nas suas costas para atravessar o rio porque o escorpião promete não lhe picar, mas então o escorpião lhe pica mesmo assim e ambos morrem, mas não antes de o sapo lhe perguntar por que e o escorpião responder, “Porque é da minha natureza” — neste sentido, sim. (Risadas) Então — esta foi minha natureza. A coisa era, eu via que a rota que eu tomei para descobrir este foco no meu trabalho e quem eu era, Eu a via assim como esta estrada para a descoberta. Na verdade, eu estava apenas abraçando a minha natureza, o que significa que eu não estava na verdade tão longe daquela árvore no final das contas.

Então o que uma “mente científica” faz nas artes? Bem, eu comecei fazendo quadrinhos, mas eu também tentei entendê-los, quase imediatamente. E uma das coisas mais importantes sobre quadrinhos, eu descobri, era que os quadrinhos são uma mídia visual, mas eles tentam abraçar todos os sentidos dentro dela. Então, os diferentes elementos dos quadrinhos, como desenhos e palavras, e os diferentes símbolos e tudo nesse meio que os quadrinhos apresentam são todos afunilados por meio do condutor único da visão. Então você tem coisas como a semelhança, onde coisas que se assemelham ao mundo físico podem ser abstraídas em um par de diferentes direções: abstraído da semelhança, mas ainda retendo o significado completo, ou abstraído tanto da semelhança quanto do significado, em direção ao plano pictórico.

Coloque esses três juntos e você tem um mapinha legal de todo o campo da iconografia visual que os quadrinhos podem abraçar. E se você se move para a direita você também tem a linguagem, porque ela está abstraindo para ainda mais longe da semelhança, mas ainda mantendo significado. A visão é chamada para representar o som e para compreender as propriedades comuns desses dois e sua herança comum, da mesma forma. E também para tentar representar a textura do som; para capturar seu caráter essencial por meio dos visuais E existe também um equilíbrio entre o visível e o invisível nos quadrinhos. Os quadrinhos são um tipo de chamada-e-resposta no qual o artista lhe dá algo para ver dentro dos quadros, e algo para imaginar entre os quadros.

Além disso, há outra noção que a visão dos quadrinhos representa, e é o tempo. A sequência é um aspecto muito importante para os quadrinhos. Os quadrinhos apresentam uma espécie de mapa temporal. E este mapa temporal era algo que energizava os quadrinhos modernos, mas eu estava imaginando se talvez ele também energizasse outros tipos de formas, e eu encontrei algumas na história. E você pode ver este mesmo princípio operando nestas versões antigas da mesma idéia. O que está acontecendo é: a forma de arte está colidindo com a tecnologia dada, quer seja pintura na pedra, como na Tumba dos Escritos no Egito antigo, ou uma escultura em relevo em uma coluna de pedras ou um bordado de 60m de comprimento ou uma pintura na pele de alce e cascas de árvores ao longo de 88 páginas dobradas em sanfona.

O interessante é, uma vez que você aperta imprimir — e, aliás, isto é de 1450 — todos os artefatos dos quadrinhos modernos começam a se apresentar: disposições retilíneas de requadros, desenhos de linhas simples e sem cor e uma sequência de leitura da esquerda para a direita. E em 100 anos, você já começa a ver balões de texto e legendas, e é realmente um salto de lá para cá. Então eu escrevi um livro sobre isso em 93, mas quando eu estava terminando o livro, eu tinha que fazer alguns ajustes tipográficos, e estava cansado de ir até minha gráfica local para fazê-lo então eu comprei um computador. E era uma coisa pequena — não era bom para quase nada além de texto — mas meu pai tinha me contado sobre a Lei de Moore, sobre a Lei de Moore lá nos anos 70, e eu sabia o que viria pela frente. E então eu mantive meus olhados abertos para ver se o tipo de mudanças que aconteceram quando fomos dos quadrinhos pré-impressão para os quadrinhos impressos aconteceriam quando nós fôssemos mais além, aos quadrinhos pós-impressão.

Então, uma das primeiras coisas que foram propostas é que nós poderíamos misturar os visuais dos quadrinhos com som, animação e interatividade dos CD-ROMs que estavam sendo feitos naqueles dias. Isso aconteceu antes da Web. E uma das primeiras coisas que eles fizeram foi, eles tentaram pegar a página do gibi como ela era e transplantá-la para os monitores, o que foi um erro McLuhanesco clássico de se apropriar dos formatos da tecnologia anterior como o conteúdo da nova tecnologia. E então, o que eles faziam era o seguinte, eles tinham essas páginas de quadrinhos parecidas com quadrinhos impressos, e eles introduziam todo este som e movimento. O problema era, se você segue esta idéia — esta idéia básica de que espaço é igual a tempo nos quadrinhos — o que acontece é que quando você introduz som e movimento, que são fenômenos que só podem ser representados ao longo do tempo, eles quebram com a continuidade de apresentação.

A interatividade era outra coisa. Havia os quadrinhos hipertexto. Mas a coisa a respeito do hipertexto é que tudo no hipertexto está aqui, ou não está aqui, ou conectado a aqui; ele é profundamente não-espacial. A distância de Abraham Lincoln para um penny Lincoln, para Penny Marshall para o Plano Marshall para o “Plano 9” para nove vidas: é a mesma. (Risadas) E — mas nos quadrinhos, nos quadrinhos, cada aspecto do trabalho, cada elemento do trabalho tem uma relação espacial para com todos os outros elementos, a todo momento.

Então a pergunta era: havia alguma maneira de preservar aquela relação espacial e ainda tirar vantagem de todas essas coisas que o digital tinha a nos oferecer? E eu encontrei minha resposta pessoal para isso nos quadrinhos antigos que eu estava mostrando para vocês. Cada um deles tem uma única linha de leitura não-fraturada, nem que seja indo em zigue-zague ao redor das paredes or subindo em espiral numa coluna ou diretamente da esquerda para direita, ou mesmo indo num zigue-zague ao contrário ao longo daquelas 88 páginas dobradas em sanfona. A mesma coisa está acontecendo, e isto é que a ideia basica de que enquanto você se move pelo espaço, você se move pelo tempo está sendo transmitida sem nenhuma perda, mas houve perdas quando a impressão chegou. Espaços próximos não eram mais momentos próximos, então a idéia básica dos quadrinhos estava sendo quebrada de novo e de novo e de novo e de novo.

E eu pensei, OK, bem, se isto for verdade, existe alguma maneira, quando nós formos além da impressão de hoje, de alguma forma trazer isto de volta? Agora, o monitor é tão limitado quanto a página, tecnicamente, certo? É uma forma diferente, mas além disso é a mesma limitação básica. Mas isso é somente se você olhar para o monitor como uma página, mas não se você olhar para o monitor como uma janela.

E foi isso que eu propus: que talvez nós pudéssemos criar estes quadrinhos num tela infinita: ao longo do eixo X e do eixo Y e escadas. Poderíamos fazer narrativas circulares que fossem literalmente circulares. Poderíamos fazer uma virada na história que literalmente fosse uma virada. Narrativas paralelas poderiam ser literalmente paralelas. X, Y e também Z. Então eu tinha todas essas noções. Isto foi no final dos anos 90. e outras pessoas no meu ramo acharam que eu estava ficando maluco, mas outras tanta levaram a sério e tomaram o desafio. Eu irei mostrar algumas agora.

Este foi um primeiro gibi de colagens feito por um colega chamado Jason Lex. E perceba o que está acontecendo aqui. O que eu estou procurando é por uma mutação durável — isto é o que todos nós estamos buscando. Ao passo em que a mídia entra nesta nova era, nós estamos procurando por mutações que sejam duráveis, que tenham algum tipo de energia de pertencimento. Agora, nós estamos levando esta idéia básica de apresentar quadrinhos numa mídia visual, e então estamos fazendo-a percorrer todo o caminho, do início ao fim. Isso é aquela história inteira que vocês acabaram de ver está na tela agora. Mas ainda que estejamos somente experimentando um pedaço por vez, é apenas onde a tecnologia se encontra agora. À medida em que a tecnologia evolui, à medida em que você consegue displays completamente imersivos e o que mais vier, esse tipo de coisa só vai crescer. Ele se adaptará. Ele Ele se adaptará a seu ambiente: é uma mutação durável.

Aqui está outra que vou lhe mostrar. Esta é feita por Drew Weing; Esta é chamada “Pop Contempla a Morte por Calor do Universo.” Veja o que está acontecendo aqui à medida em que desenhamos essas histórias numa tela infinita vocês criam uma expressão mais pura da especificidade desta mídia. Iremos chegar ao fim já já — você vai ver a ideia. Eu só quero chegar ao último quadro. (Risadas) Aqui está. (Risadas) (Risadas) Só mais um. Pense numa tela infinita! É feito por um cara chamado Daniel Merlin Goodbrey na Inglaterra.

Por que isso é importante? Eu acho que isso é importante porque a mídia, toda a mídia, nos fornece uma janela de volta para nosso mundo. Agora, poderia ser que filmes — a realidade virtual, ou algo equivalente a ela — alguma espécie de display imersivo, nos entregue a fuga mais eficiente do mundo em que vivemos. É por isso que a maioria das pessoas conta histórias, para escapar. Mas a mídia nos fornece uma janela de volta para o mundo em que vivemos. E quando a mídia evolui de modo que a identidade da mídia se torne cada vez mais única. Porque o que você está avistando, você está olhando para quadrinhos cúbicos: você olha para quadrinhos que são mais parecidos com quadrinhos. Quando isso acontece, você fornece às pessoas caminhos múltiplos de re-entrar no mundo por meio de diferentes janelas, e quando você faz isso, lhes permite triangular o mundo em que eles vivem e ver a sua forma. E é por isso que eu acho que isso é importante. Uma das muitas razões, mas eu tenho que ir agora. Obrigado por estarem comigo.

Quadrinhos e Possibilidades Artísticas – palestra de Scott McCloud (vídeo)
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